Calendários Juliano e Gregoriano
A necessidade de contar o tempo surgiu durante o Neolítico, quando os primeiros agricultores notaram a importância do conhecimento das estações do ano para o sucesso das plantações. Isso levou ao desenvolvimento de um sistema próprio de contagem do tempo. Assim, o calendário é um sistema de contagem do tempo, que apresenta os dias, semanas, meses e estações do ano, as festas litúrgicas e feriados civis, a indicação das fases da Lua, etc. O nome deriva de calendae, «calendas», que indicava o primeiro dia do mês romano. O calendário moderno é do tipo solar1 .
Neste artigo abordamos os calendários Juliano e Gregoriano, de uma forma geral e sucinta, sem entrar em muitos pormenores técnicos. Estes dois calendários sucedem-se cronologicamente e são importantes para perceber porque existe uma supressão de 10 dias, na passagem de um calendário para o outro.
O calendário Juliano foi instituído em Roma em 46 a.C (na época era chamado ano 708 da fundação de Roma), por Júlio César (102-44 a.C.), conforme as recomendações do astrónomo Sosígenes de Alexandria (séc. I a.C.). Houve um reajustamento do ano civil com o astronómico2, atribuindo 445 dias ao ano 46 a.C.3 Este calendário estabeleceu um ano com 12 meses (com 30 e 31 dias, excepto o mês de Fevereiro com 28 dias). Adoptou-se o ano solar a partir de 45 a.C., atribuindo-lhe 365 dias e 6 horas (365,2500 dias), mais 11 minutos e 14 segundos (ou 0,0078 do dia) que a verdadeira duração. Com estas 6 horas acrescentou um dia em cada 4 anos, ficando estes a chamar-se anos bissextos, por o dia ter sido intercalado no mês de Fevereiro, duplicando o dia 24, a que os romanos chamavam o «bis-sextus calendas Martii»4. O início do ano passou de 1 de Março para o dia 1 de Janeiro (a partir de 45 a.C.), data em que os cônsules tomavam conta do seu cargo. O excesso de 0,0078 do dia em cada ano juliano dava em cada período de 400 anos cerca de três dias a mais que o tempo astronómico. A diferença foi aumentando com o decorrer do tempo (a cada 128 anos atingia-se 1 dia), o que levou a partir do século XIII, a reclamar uma nova reforma do calendário, que só se deu em 1582.
O calendário Gregoriano foi um calendário instituído pelo Papa Gregório XIII (1502-1585 d.C.), conforme as recomendações do astrónomo bávaro Christophorus Clavius (1537-1612 d.C.), pela bula Inter gravíssimas de 24 de Fevereiro de 1582. Neste calendário o ano também possui 12 meses (com 30 e 31 dias, excepto o mês de Fevereiro com 28 dias). O Papa Gregório XIII estipulou que 10 dias do ano de 1582 fossem suprimidos5 – assim, o dia 4 de Outubro foi seguido do dia 15 de Outubro, para corrigir o atraso acumulado. Definiu-se um reajustamento para que o equinócio de Março recaísse no dia 21 daquele mês, conforme o 1º Concílio de Niceia (325 d.C.). O objectivo para esse equinócio de Março foi a vontade da Igreja Católica em comemorar a Páscoa cristã em data diferente da Páscoa judaica.
Neste calendário mantiveram-se os anos bissextos. Para evitar a repetição do erro do calendário anterior era indispensável suprimir três anos bissextos em cada período de 400 anos6 . Deste modo, o ano gregoriano ficou com a duração média de 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos (365,2425 dias) ou sejam 24,36 segundos (0,0003 do dia) a mais do que o ano astronómico. Esta diferença equivale aproximadamente a um dia (23 horas, 59 minutos e 58 segundos) em cada período de 3323 anos. Este calendário também não é perfeito, pois há um excesso de 0,0003 dias em relação ao ano astronómico. A diferença é de apenas 1,13 dias a cada 4000 anos. A reforma gregoriana foi logo adoptada por Portugal, Espanha e parte de Itália. A França e os Países Baixos adoptaram-na em Dezembro de 1582. Os outros países foram mais lentos na adopção deste calendário, tais como:
- Áustria e os estados católicos da Alemanha e Suiça (1584);
- Polónia (1586);
- Hungria (1587);
- os protestantes da Alemanha e Países Baixos (1700);
- Inglaterra e Suécia (1752);
- Japão (1873);
- China (1912);
- Bulgária (1916);
- Rússia (1918);
- Jugoslávia e Checoslováquia (1919);
- Grécia e igrejas ortodoxas (1923).
Hoje a sua adopção é quase universal. A mudança do calendário juliano para o gregoriano não se deu ao mesmo tempo em todo o mundo, o que causa uma certa confusão com as datas entre os séculos XVI e XX.
Nota Final
Não existe um calendário perfeito, porque os instrumentos de medida só calculam um valor médio, e o período em que a Terra dá uma volta em torno do Sol não é constante. Estas variações ao longo de muitos anos causarão novamente erros no nosso calendário “fixo” e será preciso outra reforma.
- Baseado no movimento descrito pela Terra em torno do Sol [↑]
- Também denominado como ano solar. [↑]
- Este ano ficou conhecido como o “Ano da Confusão”. [↑]
- Júlio César escolheu o mês de Fevereiro para adicionar um dia, por ser o mais curto do ano (com 28 dias) e por ser o último mês do ano entre os romanos, que consideravam um mês nefasto. Duplicou o dia 24, em vez de introduzir um novo dia (que seria o dia 29) por motivos supersticiosos. [↑]
- Entre o calendário juliano e gregoriano passaram-se 1257 anos. Como no sistema juliano a cada 128 anos haveria a necessidade de retirar um dia do calendário, acumularam-se, depois de 1257 anos, aproximadamente 10 dias. Em 1582, na transição do sistema juliano para o gregoriano, o dia 4 de Outubro (quinta-feira) foi seguido pelo dia 15 de Outubro (sexta-feira). As mudanças do calendário modificaram apenas as datas e não os dias da semana. Os 10 dias entre eles foram retirados do calendário. [↑]
- O ano bissexto é o ano que possui um dia a mais do que os anos vulgares, ou seja, “todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100, com excepção daqueles que são múltiplos de 400”. [↑]
Fantástico…
Muito bom mesmo !
Interesante
Muito bom!
Aborda temas interessantes e muito bem aplicados.